Newsletter da Crítica

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Credulidade, descaso e certeza

Sabemos o que pensamos que sabemos?

Desidério Murcho
ago 13, 2026
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Caro leitor

Gostamos de pensar que as nossas crenças resultam da reflexão autónoma, da observação cuidadosa e da avaliação das provas. Mas quanto do que julgamos saber foi realmente verificado por nós? Sabemos que a Terra é redonda, que fumar provoca cancro, que certas doenças são causadas por vírus e que o Universo tem milhares de milhões de anos. Contudo, quase nenhum de nós conseguiria apresentar ou avaliar por si as provas relevantes. Vivemos inevitavelmente apoiados no conhecimento dos outros.

Em Como Sei que a Terra é Redonda?, de George Orwell, o ponto de partida é uma provocação de Bernard Shaw: o cidadão moderno acredita que a Terra é redonda, mas geralmente não sabe explicar porquê. Orwell tenta então reconstruir as suas razões. Recorda a maneira como os navios desaparecem no horizonte, a sombra da Terra durante os eclipses, a capacidade dos astrónomos para fazer previsões e o sucesso da navegação em redor do mundo. Mas depressa descobre que muitas destas razões dependem, por sua vez, de informações que recebeu de outras pessoas. A sua crença é verdadeira e racional, mas não resulta de uma investigação que ele próprio tenha conduzido. O texto põe assim em causa a imagem confortável segundo a qual cada pessoa deve acreditar apenas naquilo que consegue demonstrar por si. Na realidade, grande parte do nosso conhecimento repousa na autoridade de quem sabe mais do que nós.

Esta conclusão é desenvolvida filosoficamente em Dependência Epistémica, de John Hardwig.

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