Morreu Susan Haack
Uma das mais lúcidas filósofas actuais
Susan Haack (1945–2026) foi uma das mais esclarecedoras filósofas do século XX e do início deste novo século. Hoje em dia, as mesmas pessoas que se dizem defensoras da ciência, diziam há um par de décadas que a ciência era apenas como a mitologia grega — histórias ficcionais, construções sociais, “verdades” por acordo mútuo, jogos de poder e de influência. Haack, como um punhado de filósofos com mais coragem, rejeitou essas ideias. A generalidade dos filósofos da tradição analítica concordava com ela, mas muitos não deram a cara, talvez por considerarem que não valia a pena tentar defender o óbvio contra quem não conduzia a vida intelectual pela procura da verdade, mas antes da fama e do politicamente correcto. Mas Haack teve essa coragem.
Acho que não valeu de muito. Contudo, admirei-a por isso.
Mas não apenas por isso. O seu trabalho em teoria do conhecimento e em filosofia da lógica foi marcante. A sua crítica ao pseudoproblema da indução foi brilhante. A sua postura contra o cientismo — mas sempre em defesa da ciência — foi inspiradora. E esta postura faz hoje de novo falta, agora que alguns cientistas voltam à carga e fazem publicamente pseudociência.
Uma grande filósofa, e ao mesmo tempo uma pessoa afável, nada arrogante e que em 2002 vi responder calmamente a Jaakko Hintikka que, sem a mínima educação e com uma agressividade brutal, lhe interrompeu a palestra.
Temos na Crítica um artigo de Susan Haack que não perdeu actualidade, dado que continuam os ataques à verdade, vindos agora de outras direcções: À Espera de Uma Resposta. Temos também uma recensão de Matheus Martins Silva do seu livro Filosofia das Lógicas.
Vale a pena conhecer o pensamento de Susan Haack. Fica o convite.


Grande perda. Susan Haack salvou o pragmatismo de se perder na moda insensata do “novo cinismo”, como ela chamava o pós-modernismo e outros movimentos intelectuais epistemófobos.