O sofrimento dos animais
Uma reflexão urgente
Caro leitor
Talvez um dia os nossos filhos olhem para a geração presente e se perguntem como pudemos acreditar que era tolerável tratar os animais da maneira que os tratamos. Espero sinceramente que sim.
Estas são palavras certeiras de Hugh LaFollette, publicadas há quase quarenta anos, num artigo disponível na Crítica.
Tudo começou em 1975, quando Peter Singer publicou A Libertação dos Animais. Cinquenta anos depois, publicou uma segunda edição profundamente revista e actualizada, que traduzi para português. Quando li a primeira edição do livro, fiquei chocado. E fiquei ainda mais chocado ao ler a segunda edição, que recomendo vivamente.
Porquê o choque? Por duas razões.
Primeiro, porque eu não sabia como os animais são tratados pela indústria pecuária. Como a generalidade da população, tinha a ideia vaga de que serem mortos para nos alimentarmos não era propriamente agradável, mas não sabia que a morte é, para estes animais, o fim bem-vindo de uma vida de sofrimento constante. Além disso, o meu choque ficou-se a dever também ao desconhecimento da maneira com os animais são tratados nos laboratórios, para fazer investigação supostamente cientificamente, que em inúmeros casos nenhuma ciência real produz e é apenas cruel.
Assim, um primeiro factor do meu choque era o desconhecimento dos factos. Calculo que ainda hoje a generalidade das pessoas está nesse patamar. Desconhecem simplesmente os factos. Consideram-se informadas porque lêem os jornais ou vêem televisão, sem se darem conta de que quase nunca a informação relevante lhes é transmitida por esses meios. Para conhecer os factos relevantes, para saber como os animais são rotineiramente tratados, leia o livro de Peter Singer.
Mas havia uma segunda razão para o meu choque. E a segunda razão era moral. É que não há simplesmente maneira intelectualmente íntegra de defender o sofrimento que provocamos aos animais. A causa moral é límpida como a água. Como a igualdade das mulheres — daí o título do livro de Peter Singer, decalcado do movimento das mulheres dos anos 60 e 70: women’s liberation, libertação das mulheres. Como a escravatura. Como o racismo. Provocar sofrimento desnecessário aos animais é moralmente indefensável.
Este ponto moral era chocante devido a um aspecto da sofística filosófica de que só mais recentemente me libertei por completo. Fui educado numa maneira de ver a filosofia que a entende como nunca sendo acerca de coisa alguma. É só uma maneira de contar histórias sem qualquer impacto real no mundo. Histórias. Ficções. Há diferentes maneiras de contar histórias. Em alguns casos é com muitos argumentos e muita lógica e muito aparato técnico. Mas vai dar ao mesmo. São só histórias.
E eu estava habituado a isso.
Mas o livro de Peter Singer era diferente. Era filosofia no mundo real. Não era só mais uma história. Não era só mais dez argumentos para cima e para baixo e com inúmeros pormenores técnicos para exibir proficiência académica. Era uma pessoa real preocupada com problemas reais e que tinha uma prova definitiva — ou tão perto disso quanto é possível a simples mortais — de que a maneira como tratamos os animais é simplesmente imoral e não tem defesa apropriada.
Isso foi chocante.
Mas ler a segunda edição do livro — que depois acabei por traduzir — foi num certo sentido ainda mais chocante.
Mas agora por outra razão.
Porque, como o próprio autor revela no prefácio desta nova edição, dado o sucesso internacional do livro, teria sido de esperar que grande parte da população se tivesse organizado para fazer pressão política para acabar gradualmente com a maneira indesculpável como tratamos os animais. Mas isso não aconteceu. Nem é de prever que venha a acontecer, simplesmente porque nunca aconteceu. As mudanças morais positivas ocorreram sempre por via legislativa, e não porque a generalidade das pessoas deixou de ser esclavagista, ou machista, ou preconceituosa em relação à homossexualidade. As mudanças morais positivas acontecem sempre por imposição legislativa. É uma pena. A minha veia anarquista preferia que não fosse assim. Mas é.
Temos na Crítica inúmeros artigos sobre os direitos dos animais. Apresento de seguida uma brevíssima selecção dos que me parecem mais informativos e relevantes.
Yuval Noah Harari escreveu um prefácio para a nova edição do livro de Peter Singer, que está disponível na Crítica. Vale a pena ler para se começar a ter uma ideia da parte factual da questão.
A leitura talvez mais fácil é um conjunto de três Diálogos sobre o Vegetarianismo Ético, de Michael Huemer. Como a generalidade dos filósofos informados hoje em dia, Huemer compreende a imoralidade do tratamento que damos aos animais usados para nos alimentarmos, e explica bem as ideias e factos relevantes.
O prémio nobel da literatura J. M. Coetzee escreveu uma pequena obra ficcional que funciona como um jogo de espelhos sobre este mesmo tema: As Vidas dos Animais. A obra é complementada por alguns ensaios de outros autores. Um desses ensaios é de Peter Singer, que decidiu escrever como se fosse também ficção. Pode-se ler esse interessante texto, Os Animais e a Filosofia, na Crítica.
No podcast Despolariza fiz algumas afirmações sobre o tratamento dos animais que se tornaram polémicas pelas razões erradas. Quando o activismo está mais interessado em ganhar pontos na competição interminável da Exibição da Virtude do que na verdade, dá nisto.
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Como um dia foi presumivelmente referido por Paul McCartney :
- "No dia em que os matadouros tiverem paredes de vidro, passaremos a ser vegetarianos".
Obrigado por mais esta URGENTE chamada de atenção, e de reflexão.
Importante discussão! Por vezes, fico constrangido de pertencer à raça humana...