Recordando Quine
Linguagem, modalidade e naturalismo
Caro leitor
A minha proposta de leituras de hoje ajuda a conhecer melhor um dos filósofos que mais impacto teve na filosofia europeia e norte-americana do período do pós-guerra: Quine. Tomados em conjunto, estes textos contam uma história intelectual notável. Os três primeiros apresentam algumas das teses mais influentes de Quine acerca da linguagem, da metafísica e da ética; o último mostra como essas mesmas teses inspiraram uma das mais engenhosas paródias filosóficas do século XX. Ler Kripke depois de ler Quine é uma experiência rara: é ver um filósofo de génio responder a outro não apenas com argumentos, mas também com humor.
A Inescrutabilidade e Relatividade da Referência Segundo Quine, de Michael J. Loux e Wm. David Solomon (tradução de Vítor Guerreiro)
Este ensaio introduz duas das teses mais célebres e desconcertantes de Quine: a indeterminação da tradução e a inescrutabilidade da referência. A partir do famoso exemplo do termo gavagai, usado por pessoas que falam uma língua desconhecida quando vêem coelhos, os autores mostram como diferentes interpretações daquilo a que uma palavra se refere podem ser igualmente compatíveis com todos os dados observáveis disponíveis. O resultado é uma profunda revisão das nossas intuições acerca do significado: talvez não haja qualquer facto objectivo que determine se uma palavra significa “coelho”, “parte não destacada de coelho” ou outra coisa semelhante. O texto explica estas ideias com clareza exemplar, mas não deixa de apresentar algumas das dificuldades filosóficas que enfrentam.
Quine e as Modalidades Aléticas, de Dagfinn Føllesdal (tradução de Desidério Murcho)
Depois de compreender o cepticismo de Quine relativamente ao significado, torna-se mais fácil entender a sua atitude perante a necessidade e a possibilidade. Føllesdal mostra que Quine considerava que as noções modais tradicionais dependiam de conceitos obscuros, como significado, sinonímia e analiticidade. O ensaio acompanha a evolução dos argumentos de Quine contra a lógica modal quantificada, incluindo as suas célebres objecções à quantificação em contextos modais e a sua resistência ao essencialismo. Trata-se de um retrato intelectualmente fascinante de uma das campanhas filosóficas mais influentes do século XX, campanha essa que acabaria por provocar as respostas de autores como Saul Kripke e David Lewis.
Poderia Quine Ser um Cognitivista Moral?, de Rafael Martins
O terceiro texto aborda o pensamento moral de Quine. Rafael Martins pergunta se o naturalismo de Quine deveria conduzi-lo a uma forma de cognitivismo moral, segundo a qual algumas afirmações morais podem ser verdadeiras ou falsas. A resposta de Quine foi negativa: este filósofo adoptou uma posição próxima do emotivismo, considerando que os juízos morais exprimem sobretudo atitudes e sentimentos. O interesse do artigo está em mostrar que esta posição não é uma simples incoerência no sistema quiniano, mas antes uma consequência das suas opções filosóficas mais profundas. Contudo, o autor sustenta que Quine acabou por subestimar a possibilidade de uma investigação moral objectiva, oferecendo assim uma crítica simultaneamente respeitosa e incisiva.
Mais um Dogma do Empirismo, de Saul Kripke (tradução de Desidério Murcho)
Depois de percorrer as críticas de Quine ao significado, à analiticidade e a outras noções filosóficas tradicionais, chega a altura da vingança humorística. Neste texto satírico, Kripke imita deliberadamente o estilo argumentativo de Quine para “demonstrar” que a própria noção de falsidade é tão obscura e circular quanto Quine alegava que eram a analiticidade ou a sinonímia. Surge então a doutrina fictícia do “afirmativismo”, contraposta ao “negativismo”, e o leitor vê desfilar argumentos que reproduzem quase passo a passo a estrutura das críticas quinianas. O efeito é simultaneamente cómico e filosófico: a paródia obriga-nos a perguntar se Quine terá, por vezes, exigido padrões de explicação impossíveis de satisfazer. Poucos textos conseguem ser ao mesmo tempo tão divertidos e tão instrutivos acerca das tensões centrais da filosofia de Quine.
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