Será a objectividade um mito?
A pós-verdade antes da pós-verdade
Caro leitor
Trago-lhe hoje quatro sugestões de leitura e reflexão sobre o difícil tema da objectividade. Os textos começam pela crítica ao relativismo e à desconstrução, passam pela discussão da objectividade em filosofia, e terminam na questão prática: como conciliar a defesa dos direitos humanos com a ideia de que a objectividade moral é um mito?
Na sua recensão de A Última Palavra, de Thomas Nagel, Bernard Williams apresenta a defesa nageliana da razão objectiva contra o relativismo, o subjectivismo e o naturalismo. Mas critica a estratégia demasiado geral de Nagel: nem todas as áreas — ciência, ética, história, autocompreensão — resistem do mesmo modo ao cepticismo. O texto abre o problema comum aos quatro artigos: até onde pode ir a crítica da objectividade sem se destruir a si própria?
No artigo O Que é a Construção Social?, Paul Boghossian distingue cuidadosamente duas teses: a de que certas coisas são construções sociais, como o dinheiro ou a cidadania, e a de que certas crenças são moldadas socialmente. A distinção é crucial porque algumas teses construtivistas são perfeitamente razoáveis, enquanto outras parecem transformar factos naturais — dinossauros, quarks, montanhas — em produtos sociais. O artigo liga-se directamente a Nagel e Williams porque analisa uma das fontes contemporâneas do anti-realismo.
Peter Van Inwagen, no artigo Objectividade, defende a ideia de verdade objectiva: as nossas crenças e afirmações são verdadeiras ou falsas quando o mundo é como essas crenças e afirmações dizem que é. A metáfora central é a do mapa e do território: compete ao mapa representar correctamente o território; não compete ao território adaptar-se ao mapa. O artigo clarifica o núcleo realista que está por trás da crítica ao relativismo e ao construtivismo radical.
Por último, temos um dos meus artigos mais lidos: Ética e Direitos Humanos. Neste artigo examino uma tensão frequente: muitas pessoas defendem simultaneamente que os valores morais são relativos às culturas e que os direitos humanos são universais. Mas estas duas ideias parecem incompatíveis. Se todos os valores forem apenas relativos, torna-se difícil condenar racionalmente práticas como a escravatura ou a opressão. O texto explora até que ponto existem razões objectivas para defender direitos humanos universais, colocando em causa o relativismo moral.
Como bónus, sugiro a leitura de um livro que nunca chegou a ser traduzido entre nós, mas que deveria tê-lo sido: Ethical Theory 1: The Question of Objectivity. Temos na crítica uma breve nota de apresentação deste livro.
Estas são algumas das muitas leituras estimulantes que encontra na Crítica.
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